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FALSO SONO FALSO SOM
Performance de Diogo Bolota
25.02.22 - 27.02.22















Não foi assim há tanto tempo. Ainda se via o mesmo céu de zinco, infantil, em que alguém se aproximava. Continuava mudo, ainda que com a sensação da voz, talvez por dentro, vinda de dentro, vinda do ouvir como que vendo-o, ao contrário. A       reunia a culpa. Procurava ouvir.

Os nomes errados, as ruas erradas, os mesmos espaços. Familiar.

- o suor expande depois do impacto, lançando restos da pele no espaço;
- a mola do pescoço prende a ponta do gume com que cada gotícula o corta até pousar no ar, invisível, suspendendo o seu antigo calor;
- a água torna-se tépida, pó, molde e carapaça;

A        procura ouvir, flutua nas fronteiras duras da vigília. Torce, inclina, segue um corredor fundo, a cada passo maior, encontra por vezes uma língua, um canto húmido, vazio. A        , letra  , letra   , letra    ,letra   , letra   , letra  , procura, foge lenta sempre guardada nos limites do corpo, abafada por eles. O imaginário também,

porque a grade, sendo um espaço vazio ou, se não conseguirmos esconder as         , cheio, é necessariamente um vazio que se tenta ocupar mas não dá para preencher.

Luzes, lareiras, as estradas do limiar da ida e o primeiro almoço de verão. Era isso? Era isso que a        procurava ouvir? Não é escultura, não é desenho; é imaginário a preencher, a reformar o espaço, a criar paisagem. Galo? Praia? Eram sempre várias vozes, como se a cada onda se desfizesse o prumo que ligava a sinfonia. A        procurava.

- a pele torna-se ruína, dá-se a respirar ao longe;
- sabemos que tocar em quem tocamos marca no tempo mais uma distância;
- a luz é tão clara que o vento ganha silhueta;

A medula espuma por dentro, mastigar, as cidades vistas de cima, de noite, os dentes. E andar apenas em ângulo reto para não suar. A        procura e, como tal, define um valor, uma escala, move-se pelo acto de mover. A        procura: letra   , letra   , letra   , letra   , letra  , letra   .