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FROM/SINCE TIME IMMEMORIAL                        
Adriana João, Filipa Alves & Gabriel Siams
27.05.21 - 29.05.21 











Um tempo que antecede um período legalmente definido como a base de um costume ou direito.
Um tempo tão longínquo que se torna indeterminado aos olhos da História ou da tradição
– um tempo fora do espírito.


Integrada num ciclo programático do EGEU dedicado a pensar o conceito de repetição, a residência artística desenvolvida por Adriana João, Filipa Alves e Gabriel Siams durante o mês de Maio, corresponde ao segundo momento desse programa, que se sucede a Apontamentos, apresentado em Abril. A presente exposição From/Since Time Immemorial é o resultado do gesto performático que o programa.

O título remete para um tempo primordial, originário, associado ao qual encontra-se um acto performático levado a cabo pelos artistas em ciclos diários, ao longo de quinze dias, que encena uma narrativa mitológica da tecelagem do destino. Esse acto materializa-se via um conjunto de acções repetitivas – movimentos circulares, perfeitos e imperfeitos, usando o corpo e as correntes instaladas no espaço como ferramentas de escrita no tempo e sobre a areia –, que tomam o espaço como um local ritualístico, no qual os múltiplos ecos encarnados agora se plasmam. 

A exposição, uma instalação multimédia, é constituída por um banco de areia, que ocupa o chão da área expositiva do espaço, correntes metálicas suspensas e entrecruzadas, uma peça sonora, um vídeo e um website, que visa criar um espaço virtual e um arquivo do processo da residência. Estes vestígios enunciam as possibilidades da imagem do destino enquanto signo que veicula o tempo enquanto imersão, porém um tempo já não pensado como algo necessariamente sequencial e contínuo, mas como uma dimensão profundamente heterogénea, simultaneamente individual e coletiva, concreta e abstrata, retrospectiva e prospectiva.

Sobre duas toneladas de areia de rio pairam 180 metros e 60kg de correntes metálicas, emaranhadas, fruto do tecer cuidado dos artistas, sobre as quais experimentaram, fixando diferentes pontos de contacto na parede e nas grades. Enunciando, desde já, o carácter lúdico do trabalho, remetem-nos para um campo de areia com uma estrutura vertical, que lembra uma teia de aranha, ora à qual se ascende ao topo, ora se repousa e descansa nos seus membros inferiores – onde se convida o espectador a tomar parte do jogo cénico, entrando na teia. Os fios metálicos, pesados, frios, indúcteis no seu estado sólido sobrevoam o espaço; a areia granular, inerte, angular, heterogénea e porosa adorna o chão do espaço, reconfigurando os sentidos da percepção, do toque e da visão – o exterior encontra-se no interior. Fiados do fuso, os fios são sorteados pelas mãos e corpos dos três, que alternadamente afastam, cortam e entrecortam as correntes e a distância que vai da parede às grades, do tecto ao chão, criando padrões orgânicos e mutáveis pelo seu movimento humanamente provocado, tornando o indúctil dúctil. A areia absorve os movimentos de quem tece, deixando as suas pegadas e marcas, numa matriz topográfica e temporal. 

A peça sonora, um loop, a um canto, projecta ecos no espaço de sons capturados durante o acto de tecelagem sobre as correntes, vindos do passado. O som, captado em tempo directo e posteriormente trabalhado, remonta ao lugar do processo, explorado repetitivamente, criando camadas de ruído e distorção tónica, como correntes que chocam e recorrendo ao microfone como elemento de escrita sonora sobre a areia. Este registo permite entrar, circulando, no lugar cronológico da residência, criando uma ficção dessa paisagem sonora.

Se o som corresponde ao ouvido que testemunha, a peça de vídeo, igualmente em loop, fecha o circuito - closed-circuit television – com o olho, a câmara que vigia os agentes da tecelagem. Visão dada a ver através de uma televisão de raios catódicos, onde os canhões de electrões os aprisionam, num ecrã de grão, com indumentária a rigor concebida por Vânia Barros. As imagens, nove camadas sobrepostas de um mesmo plano desfasado três segundos, criam um arrastamento do trabalho, um ralenti do processo, esbatendo os contornos da acção e paradoxalmente reproduzido em aceleração.

Em ambas, o eco, plasticamente trabalhado, destrói a fidelidade para com o original, o documento do momento, criando uma narrativa que promove um indagar sobre a linha do tempo, entre o momento da captura e aquele, presente, da exposição – de quem é a agência da criação? – e cuja extensão (contrária) se encontra no arquivo e espaço virtual do website, co-construído para o efeito com Joana Franco. Esse espaço, interactivo, permite a manipulação geográfica dos documentos (inalterados após o momento da captura) por parte do utilizador, que os reorganiza, exercendo ele próprio a tecelagem, sorteio e corte do fio do novelo – um acto activo fora do tempo e do espaço da produção destes trabalhos, ampliando o diâmetro do círculo. Na ligação entre o espaço físico, no EGEU, e o virtual, encontra-se um ponto (túnel) de ligação, a peça sonora, unindo o carácter metonímico e metafórico do trabalho, criando um arquivo vivo e dinâmico.   

A diferença operática entre from e since, duais no título, termos que denotam formas diferentes de enunciar o ponto de partida temporal de uma acção inacabada no presente, abrem, por fim, o círculo que aqui figura. Termos cuja diferença encontra-se no contexto, expressam duração, onde since não comunica a informação completa pertinente a uma frase, enquanto que from existe no seu estado completo. Esta diferença linguística, frequentemente evasiva, que coexiste no título e na exposição é o resultado da própria tensão desenvolvida pelos artistas, que jogam constantemente contra a ilusão da completude e absolutismo do processo.

Como se de uma mesma roda de fiar todos estes elementos emergissem, o acaso deixado por João, Alves e Siams, é o elemento central desta proposta, deixando clara a natureza caprichosa do destino, onde apenas se tenta adiar o inadiável e na qual a fortuna acaba sempre por tender para o mesmo lado, o da possibilidade.