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NATURE TUNED TO A DEAD CHANNEL
Exposição de Bruno José Silva, Joana Patrão e Marco Pestana
28.04.2022 - 30.04.2022














A exposição Nature tuned to a dead channel de Bruno José Silva, Joana Patrão e Marco Pestana reúne um conjunto de obras entre a fotografia, o vídeo e o trabalho digital que exploram a tensão entre paisagem real e virtual, assim como a relação entre natureza e intimidade.

Inserida num ciclo do EGEU sobre o conceito de paisagem na prática artística, esta exposição junta peças recentes e adaptações site-specific ao espaço expositivo de projectos anteriores dos artistas.

De Leiria, Barcelos e Funchal, todos estes artistas mostram um interesse, no seu corpo de trabalho, em estudar a paisagem e a imagem: os seus limites, a sua desmaterialização, a sua relação com a cultura ou a sua construção a partir da memória e de vivências físicas no espaço natural. É isso que os une nesta exposição.

O título remete para a frase inaugural do romance de ficção científica de William Gibson, Neuromancer (1984): “The sky above the port was the colour of television, tuned to a dead channel”. Criando desde logo um cenário distópico, a obra explora as consequências nefastas do progresso tecnológico, ilustradas na construção de paisagens artificiais.

À semelhança da promessa falhada, presente no livro, da televisão como símbolo de futuro, também nesta exposição existe uma tentativa de inverter a noção de que a paisagem é um elemento estático ou de que a sua virtualidade está necessariamente vinculada à sua artificialidade.

No EGEU, os trabalhos destes artistas juntam-se numa instalação colectiva, recorrendo a técnicas como a impressão e a transferência de imagens para as paredes e vidros do espaço ou a projecção de vídeos e fotografias em suportes translúcidos.

Joana Patrão explora a possibilidade de criar intimidade com a natureza, a partir de Mapas de toque, um registo em vídeo, apresentado num ecrã de retro-iluminação, e numa fotografia, aqui
suspensa e impressa em papel vegetal, do encontro entre o corpo da artista e uma rocha na ilha de Suomenlinna, na qual se deitou. Através das imagens apresentadas, descobrimos, por um lado, a sua presença na rocha, a qual parece modelar-se ao seu corpo e, por outro, a sua ausência no local onde anteriormente se deitou, deixando um vazio a ser preenchido pelo olhar do espectador. Documentando o processo de construção de uma paisagem por meio do corpo, a artista cria, assim, uma nova topografia deste local, de que estas imagens são registo, como se de mapas se tratassem. Mapas esses que, neste caso, actuam dentro do espaço do EGEU, não como documentos estanques, mas como “paredes vivas”, tanto devido ao seu carácter translúcido, como ao facto de serem compostos por dois lados.

Também o trabalho de Bruno José Silva procura debruçar-se sobre a dualidade de uma imagem. A partir de paisagens desertas encontradas em arquivos virtuais, o artista desconstrói e sobrepõe em vinil e vidro, ora normal, ora pontilhado — dois materiais também transparentes — os elementos decorrentes dessa depuração. O resultado são imagens desmaterializadas, mais uma vez de carácter duplo, que quando atravessadas pela luz moldam o espaço expositivo.

Os vidros encontram-se pintados de tinta acrílica cinzenta, escurecendo o ambiente, mas apesar de a tinta impedir que se olhe para dentro a partir de fora, as peças de vinil dispostas no exterior do espaço criam uma dobra com as do interior, esbatendo as fronteiras entre o lado de fora e o lado de dentro. Este gesto é semelhante ao tratamento que as imagens em vidro do artista recebem quando retiradas do seu meio virtual original e transpostas para o material. Criam-se, assim, paisagens intermédias entre esses dois estádios, que no EGEU se congregam numa mesma paisagem idealizada.

Já a peça de Marco Pestana corresponde a uma transferência de uma fotografia, um tipo de trabalho característico do artista, directamente para a parede central do EGEU. Decomposta em pequenas imagens, que

depois de impressas são transpostas para a parede, este Carvalhal de Garcia Joanes por onde o artista passou e cuja marca deixou para trás, surge também como vestígio na parede. Por serem colocadas “ao contrário”, a imagem a que o espectador tem acesso é, na verdade, o negativo da fotografia, não sendo, por isso, possível aceder à imagem original, mas sim ao seu reverso.

Agora em forma de grelha, algures entre a fotografia e a pintura, a transferência acaba por se confundir com as linhas e os limites do espaço, perturbando as fronteiras onde a peça começa e o espaço acaba. Isto é, ao agir como suporte, a parede torna-se, no fundo, parte constituinte do trabalho — tal como acontece com os vidros no trabalho de Bruno José Silva — acrescentando a sua rugosidade própria ao grão da imagem.

Somadas as coisas, a exposição Nature tuned to a dead channel reúne uma série de trabalhos que, através da sobreposição e fragmentação de meios, parecem confluir para uma mesma reflexão: a de que qualquer paisagem, seja esta virtual ou corporal, é fruto da construção de um olhar, passível de mutar e afectar o seu redor.

Ana Bacelar Begonha e Tomás Agostinho